Revista Sucesso

Atualizado em 15/06/2016 10:09

Educação

Desrespeito aos direitos básicos

A verdade é que ninguém conhece melhor as limitações de sua deficiência do que a pessoa que convive com ela.

Da redação

Virou notícia a história da empresária Katya Hemelrijk da Silva, de 38 anos, cadeirante, que teve que se arrastar para conseguir subir as escadas a fim de embarcar num avião que saiu de Foz do Iguaçu para São Paulo na madrugada do dia 01/12. O equipamento necessário para efetuar o embarque da cadeira de rodas, segundo a empresa aérea, “não estava disponível”.

A minha primeira pergunta surge aí: o que exatamente significa não estar disponível? Sim, porque a companhia aérea se utilizou dessa expressão, e não de “estava em manutenção” ou “emprestado para outra companhia”, por exemplo. Será possível o absurdo de que, simplesmente, a empresa não possui o equipamento necessário para o embarque de pessoas com deficiência que se utilizam de cadeira de rodas num aeroporto de uma cidade turística como Foz do Iguaçu?

Talvez esse absurdo não seja somente possível, como provável. A companhia cita que ofereceu alternativas para a passageira, entre elas a de que um membro da tripulação a carregasse no colo para dentro do avião, que no caso traria riscos à saúde dela, já que é portadora da síndrome dos ossos de vidro e qualquer tipo de impacto poderia trazer consequências graves.

Mas fico imaginando que talvez é se utilizando de propostas como esta que companhias aéreas ou de transporte público em geral se esquivam de obter esse tipo de equipamento. Sim, porque não é possível que Katya tenha sido a primeira cadeirante a embarcar no aeroporto de Foz do Iguaçu. E, por mais que essa atitude solucione o problema imediato, o constrangimento pelo qual passa o cadeirante carregado já seria o suficiente para recriminar a atitude da companhia. Mesmo se no caso em questão a companhia aérea possuir o equipamento, ainda assim o fato de ele não estar disponível quando necessário é responsabilidade da mesma.

Várias pessoas questionam a atitude da empresária de subir as escadas se arrastando ao invés de aceitar a suposta solução encontrada pela companhia, por concluírem que a maneira como ela subiu as escadas traria mais riscos do que ser carregada, e que tal decisão teria sido feita baseada em seu orgulho próprio. Mas que orgulho poderia existir em subir as escadas do avião se arrastando?

E então deve ser analisado outro ponto da questão. A verdade é que ninguém conhece melhor as limitações de sua deficiência do que a pessoa que convive com ela.

Então, se a empresária optou por passar pela situação de se arrastar escada acima ao invés de ser carregada, é porque ela conhece suas limitações e sabe que aquela opção era a que oferecia menos riscos para a sua saúde.
Por mais que possa parecer diferente para quem lê a notícia, quem não convive com a deficiência e portanto não tem ideia das dificuldades que ela traz, também não tem conhecimento suficiente para julgar as atitudes que a pessoa com deficiência toma.

A companhia aérea termina seu comunicado oficial sobre o caso dizendo que vai tomar as providências necessárias para que o problema não se repita. Ainda bem. Afinal, o direito à dignidade humana e o direito de ir e vir são de todos, pessoas com deficiência ou não.

 

acessibilidade, Katya Hemelrijk da Silva,

Colunista

Mariana Maiz Pirolo

Bacharel em direito, apaixonada por literatura e blogueira. Blog Pequenos Retalhos

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