Revista Sucesso

Atualizado em 15/06/2016 10:31

Educação

O bom senso e a rotina diária

Esse é o problema de ser diferente: é precisar, muitas vezes, contar com o bom senso de quem não tem dificuldades para poder concluir sua rotina

Da redação

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Ter uma deficiência física traz muitas dificuldades. A rotina de uma pessoa com deficiência sempre contém limites a serem desafiados e maneiras alternativas que devem ser adotadas para conviver e executar as mais simples atividades. Na verdade, com todas as pessoas é assim: alguém que se utiliza de lentes de contato deve lembrar-se de colocá-las todas as manhãs para que sua visão durante o dia não seja prejudicada, para dar um exemplo.

A diferença é que no caso de uma pessoa com deficiência, essas limitações a serem superadas estão bem mais presentes e acabam se tornando grande parte do seu dia. Para que tais limitações não acabem se transformando em verdadeiros desafios dignos de “reality show”, existem normas para garantir que certos aspectos sejam facilitados e certas dificuldades sejam amenizadas.

Uma delas, que todos conhecem e veem em qualquer estacionamento, são as vagas reservadas para pessoas com deficiência.

Porém, desafio a quem estiver lendo essa coluna a encontrar alguém que nunca viu tais vagas sendo utilizadas de modo errado por outras pessoas. Quantas vezes não presenciamos a cena de, em um estacionamento lotado (e às vezes nem tão lotado assim), um carro estacionando numa dessas vagas reservadas e bem sinalizadas e as pessoas que saem desse carro (algumas vezes furtivamente, olhando para os lados como que com medo de estarem sendo observadas; outras sem nenhuma preocupação aparente, como se fosse seu direito estacionar o carro ali) não têm nenhuma dificuldade de locomoção.

E se perguntadas o porquê de terem estacionado nas vagas reservadas, normalmente podemos ter o privilégio de ouvir as mais esfarrapadas desculpas: é só por um minuto, eu vou ali e já volto, acordei hoje com dor nas costas... Cheguei a ter o desfortúnio de presenciar a cena em que pai e filho saem do carro; o menino, percebendo em que vaga o pai parou, chama a atenção e aponta para a placa. O pai dá de ombros e responde “Mas é rapidinho”. Fiquei imaginando que tipo de educação estamos dando para os nossos adultos de amanhã.

A vaga reservada para as pessoas com deficiência é uma vaga especial. Normalmente, ela é maior que as outras vagas exatamente para garantir que, entre os carros estacionados, exista espaço para que a pessoa possa manobrar sua cadeira de rodas. Costuma ser uma vaga mais perto da entrada (e logicamente, mais perto da entrada que tenha uma rampa ou acesso por elevador) para eliminar a distância e garantir que a pessoa que já tem uma dificuldade de locomoção não tenha que fazer muito esforço para chegar a seu destino. Por isso, quando tais vagas se encontram ocupadas e a pessoa que necessita da vaga se vê obrigada a deixar seu carro numa vaga simples, ela acaba tendo muito mais dificuldades de acesso. Em certas situações, tais dificuldades se tornam intransponíveis e impedem que a pessoa consiga chegar ao local desejado.

Uma vez vi numa rede social a foto de uma dessas placas que sinalizam a vaga reservada para pessoas com deficiência e o seguinte acréscimo logo abaixo: “A deficiência a que se refere essa vaga é física, não mental”. Não gostei do comentário, achei ofensivo para as pessoas que possuem algum tipo de deficiência mental. Mas consigo compreender a indignação de quem adicionou o comentário.

No final, apenas gostaria de pedir para quem um dia se sentir tentado a parar numa dessas vagas reservadas sem ter nenhum tipo de desculpa legítima para isso para que se lembre da última vez que, no trânsito, viu alguém parar em fila dupla e atrapalhar o movimento de uma fila de carros. Basicamente, o raciocínio de quem para (em fila dupla, ou de quem para em local proibido, ou de quem para bem na porta da sua garagem impedindo seu carro de sair é exatamente o mesmo de quem estaciona em vaga reservada para pessoa com deficiência: não vou atrapalhar ninguém e, se atrapalhar, a pessoa que se vire.

Porque esse é o problema de ser diferente: é precisar, muitas vezes, contar com o bom senso de quem não tem dificuldades para poder concluir sua rotina. E infelizmente, várias vezes, acabar desapontado.


acessibilidade, deficiência, reality show

Colunista

Mariana Maiz Pirolo

Bacharel em direito, apaixonada por literatura e blogueira. Blog Pequenos Retalhos

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